quinta-feira, 2 de abril de 2009

Diferencia-se e por isso expressa-se.




A noção do vestuário há muito que perdeu as suas verdadeiras funções básicas de proteger do calor, do frio ou ocultar a nudez, considerada vergonhosa pela opinião pública.
Isto leva-nos a uma conclusão sobre a evolução da sociedade e dos seus valores, que vieram a modificar as interpretações de factores como o vestuário, ao longo das épocas e que igualmente são coniventes com o fenómeno a que assistimos hoje: o vestuário é comunicação.
Deparamo-nos hoje em dia, com a impossível indiferença ao modo de como damos um nó na gravata logo pela manhã, quando sabemos que obrigatoriamente estamos a comunicar algo a todas aqueles com que nos cruzamos.
A preocupação de cobrir o corpo é apenas metade, já que a outra metade passa pela gravata, bainha das calças, passando pelas bandas do casaco até à sola do sapato. A cor, o tecido, o padrão ou a ausência dele, são factores escolhidos com o objectivo de comunicar algo: um estado de espírito, uma ideologia, um estilo que não é mais do que uma manifestação característica e pessoal.
Atingidos pela tomada de consciência da comunicabilidade do vestuário, o alargar dessa noção a um quadro mais amplo é inevitável. Quadro este, em que existe uma vida em sociedade onde tudo é comunicação e onde é um facto que o design de moda é aquele que mais atinge o público em geral.
Esta área presta-se, desde logo, a factores cada vez mais imaginativos e diferentes do que estávamos habituados a consumir.
A dinâmica de moda e os seus reflexos no vestuário e na indústria têxtil, ao longo da história, são como já vimos, uma trajectória que começa no uso da natureza para colectar materiais, nas pinturas corporais indígenas, como criação do vestir, ornamentar, ritualizar, trazendo este olhar à produção actualmente industrial do Design de Moda, incluindo-se aí os acessórios e a industria de cosmética e perfumaria.
A indumentária possui no espaço-corpo proposta e resposta da evolução física, mística, social, económica e estética de um povo, interpreta a personagem em acção através dos tempos, possibilitando a compreensão da sua actividade como parte de experiência do quotidiano das nossas variadas etnias. É, a um só tempo, inspiração e expressão de um estilo.

Pretende-se motivar a compreensão da diversidade como ponto de partida como alavanca de modernidade, pois não basta ser, deve ser sim, estar inserido no mercado mundial.
O modo como vestimos, independentemente da liberdade a que a juventude se presta a esse nível, assenta sobre códigos e convenções, muitos dos quais, fontes intocáveis, defendidas por sistemas de sanções e incentivos sob pena de se ser banido pela sociedade.
No entanto, estes sistemas de regras e equivalências no caso, por exemplo, de linguagem verbal, são fortes e sólidas, outros códigos comunicativos como o vestuário estão sujeitos a mutações, a reajustamentos contínuos, apresentam falhas, são fortes num ponto e fracos noutro. O truque de compreender todas estas mutações e variantes subjectivas e torná-las objectivas e rigorosas, é podemos dizer que está em avaliar-mos “naquela situação” tendo sempre em consciência que se modifica com rapidez e não se pode tomá-la para descrever, sem que já tenha mudado.
Nenhuma variante facultativa como por exemplo o fardamento militar, que não deixa que haja alguma invenção à fantasia ou mesmo a inclinação da boina. O traje civil já é aberto a um número mais amplo de variações individuais que passa pela escolha pessoal de cor, tecido ou forma dos sapatos. Mas apesar destas variações individuais existirem, constatamos que basta-nos olhar, por exemplo, para uma revista de moda no início de uma nova estação, para ver como até as variações são previstas com uma certa rigidez: a cintura mais baixa, o botão mais ao lado, a cor x ou y.
Isto lança porém a questão: então como é que a forma criativa e rebelde intrinsecamente jovem, aceita facilmente rigor e imposição de tendências por outrem que provavelmente não é jovem? (Mas provavelmente é o grande investidor na indústria…)
A possível análise desta questão, passa por pensarmos igualmente em termos associados à juventude: a beleza (de se ser jovem – relembramos em jeito de coligação, de que esta questão fora outrora abordada no tema da metrosexualidade, onde as razões desta associação teriam a sua lógica nos corpos perfeitos por exactamente, serem jovens e ainda não estarem em fase de “desgaste” natural, associado ao cansaço e contrário à pujança jovem).

Os jovens são, sem dúvida, o grande núcleo impulsionador da industria da moda dado que a fase da vida em causa é nada mais do que a grande fase de formação pessoal, e que por isso está menos preenchida de condicionantes, mas sim de uma ânsia de experimentação.
A liberdade de expressão intensa e tolerada “devido à idade “ porque se “é jovem”ainda está a aprender, possui uma estreita associação a um espírito arrojado e inerente e que se aceita com grande facilidade, estilos mais criativos e com objectivos de afirmação de uma postura, por esta ainda se encontrar ainda em construção.
Se não, vejamos o que socialmente interpretamos, quando confrontados com um jovem que veste indumentaria ideologicamente “punk” e um indivíduo de meia-idade aderindo ao mesmo estilo. As condutas sociais associadas a este estilo versus os valores e normas intrínsecos da nossa sociedade actual, leva-nos a estranhar este fenómeno.
Contudo, podemos também contrariar esta interpretação se nos lembrarmos das comunidades cujas diferenças etárias não afectam o modo de vestir, já que é homogéneo, como o exemplo das comunidades “hippies”, que vivem sob a alçada de valores comuns e em que o seu modo de vestir, tal como em qualquer outro grupo de referência, se baseia numa ideologia e sua afirmação. Este movimento se formos a analisar levemente, foi na verdade gerado por jovens de uma dada época, com o mesmo sentido de afirmação que hoje em dia tem o “status symbol” dos nossos jovens. A mensagem muda mas a intenção é semelhante.
Com isto, voltamos ao mesmo parâmetro que concorda com associação do fenómeno moda à juventude.
E foram estes mesmos movimentos de massa que levaram por exemplo, à desmistificação das situações em que vivemos no tempo dos nossos pais, em que a entrada na sala de aula de uma universidade não é como hoje facilmente tolerada: como o aluno que veste o camisolão e o professor também. Esta descontracção, que cada vez vemos mais associada à moda, é apenas a reflexão de longas lutas cronológicas contra a repressão de atitudes onde era encontrado o controlo facilitado da mente criativa, que era vista como uma ameaça. A evolução do conhecimento humano levou-nos a render-nos perante o fenómeno de que a vontade própria e o risco da descoberta seja aquilo que nos leva a ser realmente possuidores de conhecimento e por isso mais eficazes.

Como falava o livro “Psicologia da vestir” “(…) a sociedade, seja de que forma se constitua ao constituir-se, “fala”. Fala porque se constitui e constitui-se porque começa a falar. Quem não souber ouvi-la falar onde quer que ela fale (…) não a conhece; portanto não pode modifica-la”.
De volta a conceitos como a beleza, temos que concordar que o grande fenómeno da moda passa essencialmente por questões estéticas.
Relembrando a conclusão de que, a roupa é necessária e indispensável, vejamos de um modo mais aprofundado a função que tem nas nossas vidas e no futuro próximo e como se deve considerar a sua razão de ser no que respeita mais especificamente à estética.
Uma força criadora existiu sempre: o homem quis desde sempre imergir um ar formalmente diferenciado e diferenciante ao seu habitat e portanto a uma parte integrante do seu habitat: o seu corpo.
Roland Barthes ensinou-nos que a moda se presta a categorizações bem precisas, que se podem facilmente sobrepor às investigações estruturalistas aplicadas à poesia, às artes, à linguagem. Até um estudo mesmo limitado, por exemplo ao numero de botões do casaco masculino ou dos meramente ornamentais doas mangas nos poderia levar a interessantes discussões acerca das diferenciações subtis do tipo sociológico, classista, psicológico, técnico, profissional, etc., que este simples pormenor nos revela.
Interessante neste assunto é constatar que o lucro sociológico está em analisar aquele modo particular de exprimir-se e de comunicar inter-subjectivamente do homem através das peças de roupa que veste e dos pormenores que o conjunto apresenta, e que comunica aquela parte do indivíduo que ele deseja comunicar.
Naturalmente, como já vimos, dentro dos limites e com as regras, que lhe impõe a sociedade de que faz parte integrante, isto porque sabemos que a nossa rebelião subjectiva e particularista ao tipo de vestuário hoje generalizado e “institucionalizado”, é algo perigoso por assim dizer: se nos lembrarmos de sair vestidos de japonês, arriscamo-nos a ser tomados como tal, ou estamos mascarados, ou podemos cair mesmo no risco de ser presos por loucos.

O homem, mesmo o mais simples, realiza opções precisas com o seu vestuário que pode ser apenas sugerida pela moda ou tornar-se mesmo fetichista no caso dos coleccionadores de sapatos ou gravatas, por exemplo.
No entanto, isto é apenas o reflexo de uma vontade precisa não só de diferenciação social, não só de exibição de um “status symbol” especial (temos o exemplo do fato como elemento de diferenciação de prestígio económico e social) mas de verdadeiro empenho estético. Mas esta questão inquietante do “gosto” faz-nos pensar ate que ponto é impossível influenciar o seu gosto do exterior através da imposição de produtos oportunos.
Numa sociedade como a nossa, consumista, apercebemo-nos de como é próprio público a “escolher” o produto favorito. No caso da moda é muito grande a liberdade compositiva e deve responder apenas a certos requisitos de praticidade e economia.
Internacionalizando esta abordagem, pensamos por exemplo na elegância de vestir de algumas nações (Espanha ou França) ao lado de uma maior inépcia por parte de outra (Alemanha e Rússia), na impressão de desolação que nos transmitem os países do leste europeu em oposto, o conformismo estilístico e o certo ar desmazelado relevante no vestuário americano.
Apenas ate um certo ponto é que se trata de diferenciações devido a razoes económicas, a nível de bem-estar; muito mais isto esta associado ao gosto de cada um evidente no Estados Unidos. No caso do nosso país a situação é peculiar de ser analisada.
Portugal ainda não dispõe de um amplo mercado com características de dissipação e opulência, mas deixou de estar dominado exclusivamente pelos temas de subsistência e penúria.
O conflito do rural e da sua perspectiva lógica de produção com o urbano e a sua respectiva lógica do consumo acontece naturalmente na generalidade das localidades portuguesas. Permanecem relações de familiaridade com o mercado local, mas há simultaneamente relações de profunda industrialização da economia.
Temos o grande exemplo da Itália como grande referência das tendências do bom gosto e da moda, porque talvez, o seu grande património artístico a nível da pintura, cujo
leque cromático pode, e porque não, transpor-se para o vestuário já que o Design de Moda tem uma forte componente interventiva social tal como a pintura sempre o teve.
Podemos associar a moda à juventude, à actualidade, à sociedade de consumo que transforma o vestuário em estilo e moda, da mesma maneira que transforma a nutrição em gastronomia, a sexualidade em erotismo, o descanso do trabalho em despesas de ócio, a compra num espectáculo permanente. Com efeito, o sistema industrial contemporâneo realizou o prodígio de transformar a compra numa festa, a venda numa arte e consumo num espectáculo.
Daí a moda ser um grande reflexo e grande dominador do mercado da sociedade de consumo, ansioso por variedade e feliz por consumir. O binómio funcionalidade-beleza que vemos de uma maneira subtil no vestuário, já que a última exerce uma força superior, constatamos na exigência do homem se adornar a si próprio, de juntar ao seu corpo um factor estético e simbólico do homem de hoje e de sempre.
Não nos cabe prever o vestuário do futuro, mesmo que possamos idealizar peças de roupa associadas a tecnologias anti-ruga, anti-sugidade, auto-lavável mas, a certeza é que serão de muitas espécies diferentes, com os mais variados modelos de forma a poder oferecer ao homem aquele “complemento estético”, aquele factor simbólico que permita transformar o corpo nu num instrumento pleno das melhores capacidades comunicativas com o próximo.
Outra certeza será a de que a geração mais nova continuará a disfrutar do prazer de ser cobaia de experimentação da criatividade e diversidade da moda e das mesagens ideológicas e afirmações que esta oferece a cada indivíduo mas, que actua em conformidade com um colectivo de referência e se impõe em relação à generalidade que considera banal.

Diferencia-se e por isso expressa-se.

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